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Elas estão empreendendo mais: feiras e brechós viram cenário para empreendedorismo feminino em Goiás

23 de set.
8 min de leitura

Atualizado: 26 de set.

Estado registrou 79 mil novos negócios com participação feminina no último ano, mas burocracia trava expansão


Cliente escolhe roupas em arara de feira de moda circular e brechó em Goiânia
Cliente escolhe roupas em arara de feira de moda circular e brechó em Goiânia. - Foto: Coletivo Rosa

Especial para o Vértice

O mundo dos negócios em Goiás passa por uma transformação silenciosa, mas profunda, em sua engrenagem econômica: a consolidação do protagonismo feminino. Impulsionadas pela busca por autonomia financeira, necessidade de flexibilidade diante da dupla jornada ou pela transformação de paixões pessoais em empreendimentos reais, dezenas de milhares de mulheres assumem diariamente o papel de gestoras e líderes de suas próprias trajetórias. Contudo, entre o nascimento de uma ideia e a consolidação de uma empresa formalizada, o caminho é marcado por superações diárias, escassez de crédito, sobrecarga familiar e desafios burocráticos.


Dados da Junta Comercial do Estado de Goiás (Juceg) obtidos pela reportagem desenham com precisão o volume desse movimento. Considerando empresas abertas com pelo menos uma mulher no quadro societário, Goiás registrou 65.402 novos negócios em 2024, somando Microempreendedores Individuais (MEIs) e empresas que não se enquadram nessa categoria. O avanço foi ainda mais forte em 2025, quando o número chegou a 79.366 empresas, aproximadamente 21,3% acima do registrado em 2024. Já no balanço parcial de 2026, o estado contabiliza 65.278 novos registros femininos, distribuídos entre 49.459 MEIs e 15.819 empreendimentos de outros portes.


Na capital, o cenário acompanha esse mesmo crescimento. Goiânia registrou a criação de 14.081 MEIs femininos em 2024, saltando para um pico de 18.326 em 2025 e somando 15.571 novos registros em 2026. Entre os negócios Não MEI na capital, os registros femininos mantiveram consistência, somando 7.645 (2024), 8.010 (2025) e 6.312 em 2026.


Jornada dupla e liderança no lar

Esse panorama reflete uma mudança estrutural na sociedade goiana. Segundo Wanderson Lima, gerente de negócios e relacionamento da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Goiânia, as mulheres já lideram mais de 40% dos negócios ativos em todo o estado de Goiás, somando centenas de milhares de empresárias.


Ele enfatiza ainda que a escolaridade média das empreendedoras costuma superar a dos homens, mas elas ainda enfrentam a sobrecarga da dupla jornada. "Quase 40% operam inicialmente o negócio dentro da própria residência, em uma estrutura mais familiar, para dar conta de equilibrar as tarefas do lar e não deixar o seu empreendimento parar", complementa, em entrevista ao Vértice.


Para entidades representativas e de apoio ao setor produtivo, iniciativas que reúnem feiras itinerantes, moda circular e consumo consciente funcionam como os principais ecossistemas de entrada para a prática empresarial. Wanderson Lima analisa que a CDL não enxerga essas feiras como concorrência informal, mas sim como laboratórios ou "berçários" de novos negócios. É nesses ambientes que a empreendedora testa preços, valida seus produtos e conquista a primeira cartela de clientes.


Da paixão comunitária à rota de expansão: a evolução do Coletivo Rosa

Exemplo emblemático dessa dinâmica de transformação e impacto social é a trajetória do projeto Coletivo Rosa, antes, conhecido por sua origem como Cabide Rosa. A iniciativa nasceu em março de 2022, no período pós-pandemia, idealizada por Paula Braga. Mãe de três filhos, casada e estudante de Serviço Social, Paula sempre manteve contato com ações comunitárias e trazia no DNA a paixão pelo comércio circular, herdada da tia, dona de brechó, e da avó, que atuou como coordenadora de um bazar social.


"Antes do projeto, eu já visitava vários locais e via muitas pessoas passando dificuldades. Sempre me incomodou ver tantas mulheres precisando de uma oportunidade para gerar renda. Pensei que poderia ajudar com uma alternativa prática", relembra a fundadora à reportagem.


Paula Braga fundou o Cabide Rosa com ajuda da irmã, Lethicia Braga
Paula Braga fundou o Cabide Rosa com ajuda da irmã, Lethicia Braga. - Foto: Coletivo Rosa

A caminhada começou ainda no ambiente virtual, em 2016, por meio de um grupo no Facebook. Foi nessa comunidade online que centenas de mulheres passaram a se organizar, trocar experiências e comercializar peças de desapego, criando a base de contatos do projeto. Com o fortalecimento da rede digital e a percepção de que as participantes precisavam de um ponto de venda físico no pós-pandemia, o projeto, que já não cabia mais nas telas, precisou dar um passo decisivo para o mundo presencial.


Esse início nas ruas foi modesto e exigiu alto grau de improviso. A primeira edição presencial ocorreu em 10 de março de 2022, tendo como local o Ginásio do Parque Atheneu, onde reuniu as primeiras 52 expositoras do, agora, encontro de brechós Cabide Rosa. Sem recursos próprios ou patrocínio, o grupo realizou uma vaquinha em que cada participante contribuiu com R$ 10,00 para custear um carro de som alugado para a divulgação no bairro. Os resultados surpreenderam: já na estreia, algumas bancas alcançaram vendas de até R$ 2 mil.


Primeira edição presencial do Cabide Rosa ocorreu logo após a pandemia de Covid-19
Primeira edição presencial do Cabide Rosa ocorreu logo após a pandemia de Covid-19. - Foto: Coletivo Rosa

Hoje, o até então Cabide Rosa, olha para o passado com uma história de batalhas, mas que desaguam em uma trajetória de sucesso, que levou à mudança para 'Coletivo Rosa', ao atingir a marca de 74 edições itinerantes espalhadas por praças e feiras de Goiânia, reunindo simultaneamente cerca de 120 expositores.


A proposta se expandiu além dos brechós de moda circular e vestuário (do PP ao Plus Size), incorporando praça de alimentação, bijuterias, maquiagem, artesanato autoral e atrações culturais essencialmente goianas, priorizando o incentivo a cantoras e artistas em início de carreira.


"O maior avanço foi perceber que deixamos de ser apenas um evento e passamos a ser uma rede de oportunidades, autonomia e inclusão produtiva", avalia Paula.


A organizadora ressalta a diversidade do grupo, que atende desde adolescentes em busca de iniciar uma renda, até jovens empreendedoras e mulheres da terceira idade, incluindo mães solo, mães atípicas e mulheres enlutadas.


“Quando uma mulher monta sua banca, ela está ali para vender, mas também para conseguir sua renda, ajudar dentro de casa e movimentar o comércio ao redor.”, destaca.


Entraves e burocracias

Apesar do crescimento, projetos como o Coletivo Rosa ainda esbarram em desafios relacionados à formalização e à regulamentação das feiras na capital. Um dos entraves está na falta de uma classificação específica para feiras itinerantes voltadas à moda circular e aos brechós. Na legislação municipal, a categoria mais próxima é a de “Feira Especial”, embora ela não contemple especificamente essa iniciativa, como o a criada por Paula. A classificação reúne atividades de comercialização de alimentos, produtos artesanais e outros itens manufaturados, além de produtos naturais, antiguidades e obras de arte.


O desafio, no caso de eventos itinerantes de moda circular, está em como enquadrar uma proposta que reúne brechós e diferentes pequenos negócios em um formato que não aparece de maneira específica na classificação prevista pela regulamentação municipal.


Feiras de brechós e de moda circular não possuem uma categorização oficial pela Prefeitura
Feiras de brechós e de moda circular não possuem uma categorização oficial pela Prefeitura. - Foto: Coletivo Rosa

Paula conta que, diante dessa dificuldade, está trabalhando na criação da Associação Goiana de Brechós, para que possa representar formalmente a feira e dar mais estrutura ao projeto. A medida também faz parte dos próximos passos para profissionalizar a iniciativa e ampliar sua atuação em Goiânia.


A reportagem procurou a Secretaria Municipal de Gestão de Negócios e Parcerias (SEGENP), responsável pela gestão das feiras especiais da capital, para obter informações sobre o cadastro de feirantes, a regulamentação de novas iniciativas e a existência de registros específicos para feiras de brechós e moda circular. Até o fechamento desta matéria, não houve retorno.


Entre a informalidade e a expansão: os gargalos do mercado local

Apesar do impulso inicial nas feiras e no ambiente digital, a transição para a consolidação de longo prazo encontra barreiras rígidas no mercado varejista tradicional. O abismo entre começar um negócio e mantê-lo estruturado expõe gargalos sistêmicos que vão desde a escassez de recursos até a falta de capacitação em gestão básica.


No diagnóstico de Wanderson Lima, da CDL Goiânia, a escassez de crédito é uma das principais dificuldades enfrentadas pelas mulheres que pretendem dar passos maiores.


"Quem decide expandir enfrenta barreiras importantes. As linhas de financiamento exigem garantias reais que muitas microempresárias ainda não possuem. Também pesam a complexidade tributária ao migrar de MEI para microempresa e o alto custo de locação de pontos comerciais nos principais corredores e shoppings de Goiânia", destaca o porta-voz da CDL.


A transição da banca informal para a empresa sustentável exige, por sua vez, habilidades que ultrapassam a boa intenção da venda. Conforme aponta Beatriz Dorneles, analista do Sebrae Goiás, a sobrevivência desses pequenos empreendimentos depende diretamente do domínio sobre precificação, gestão financeira e posicionamento de marca.


Expositoras mostrando suas peças de brechó
Expositoras mostrando suas peças de brechó. - Foto: Coletivo Rosa

Segundo a analista, muitos brechós e feiras começam por necessidade imediata de geração de renda, mas para escalarem precisam encarar o negócio com visão técnica. Beatriz salienta que o trabalho com esse público busca oferecer suporte em frentes cruciais como curadoria de produtos, visual merchandising e vendas digitais, exatamente para transformar o apelo da moda circular em renda estruturada.


"Trabalhamos no intuito de que as empreendedoras entendam a real importância da formalização. São mulheres, muitas chefes de família, que encontram no brechó uma oportunidade de negócio sustentável, com baixo investimento inicial e giro rápido, mas que precisam da gestão para não estagnar", avalia Beatriz.


Além das dificuldades financeiras e técnicas, a escassez de espaço em mesas de decisão institucional permanece como um entrave velado. Mesmo liderando milhares de empresas na ponta, a representatividade feminina no topo do ambiente corporativo e associativo local ainda é minoritária frente ao comando masculino, o que impacta diretamente na formulação de políticas públicas voltadas ao setor.


Futuro que se constrói em movimento

Em meio às burocracias, outro desafio presente na trajetória dessas empreendedoras está no preconceito de gênero e na necessidade de superar o descrédito social. Paula conta que, ao longo da trajetória à frente do projeto, precisou provar sua capacidade de gestão e liderança com ainda mais empenho por ser mulher e estar à frente de uma iniciativa de grande porte.


"Muitas vezes precisamos provar que o que fazemos é um negócio sério, que existe planejamento, organização e responsabilidade por trás de uma feira itinerante. Aprendi a responder isso com trabalho e resultado. Em vez de tentar convencer apenas com palavras, fui construindo o projeto edição por edição", afirma .


A percepção de quem está à frente dos negócios também aparece nas análises de entidades que acompanham o setor produtivo. A análise do Sebrae Goiás aponta que a virada de chave ocorre quando a necessidade vira visão estratégica. "Observamos três impactos diretos: geração de renda imediata, autonomia financeira e a formalização do negócio. São mulheres, muitas chefes de família, que encontram na moda circular e no pequenos negócios não apenas uma saída rápida, mas uma oportunidade de construir independência sustentável", ressalta Beatriz Dorneles.


Complementando essa orientação, a recomendação da CDL Goiânia para as empreendedoras que desejam crescer, mas sentem receio de dar o próximo passo, é não tentar carregar o peso do negócio sozinhas. "O medo de crescer quase sempre é fruto da falta de método e de rede de apoio. O primeiro passo em direção à profissionalização, buscando capacitação continuada e formalização, é o que constrói a independência e a liberdade que o negócio tem potencial de alcançar", orienta Wanderson Lima.


A trajetória das milhares de goianas que registram suas empresas anualmente reforça que o empreendedorismo no estado ultrapassa a mera necessidade econômica: se trata de uma ferramenta contínua de emancipação e transformação social. Ao olhar para as quase 80 edições já realizadas pelo Coletivo Rosa, Paula Braga reflete sobre o aprendizado prático construído ao longo dos anos.


"Se eu estivesse esperado ter a estrutura perfeita, dinheiro sobrando ou tudo pronto no início, o projeto não teria saído do papel. O aprendizado veio na prática, fazendo uma edição depois da outra, errando e ajustando o caminho. O crescimento acontece quando colocamos as ideias em movimento. Empreender, para mim, foi descobrir que a minha paixão podia abrir portas de trabalho e autonomia não só para mim, mas para centenas de outras mulheres", finaliza.

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