Crítica: "Cara-de-Barro" é o melhor do Universo DC de James Gunn até aqui
Ao trocar o espetáculo tradicional dos super-heróis pelo horror corporal, filme encontra um caminho próprio no novo DCU, mas não aproveita todo o potencial de sua proposta
Aviso: Esta crítica não possui spoilers, mas pode conter conteúdos sensíveis sobre o conteúdo da obra.

O novo Universo DC, comandado por James Gunn e Peter Safran, enfrenta um desafio que vai além de apresentar personagens conhecidos ou conectar histórias em diferentes produções: construir uma identidade própria sem transformar cada filme e série em mais um capítulo de uma fórmula previsível, à la Marvel Studios.
Depois de Creature Commandos (2024), série animada dirigida por Matt Peters, Superman (2025), de James Gunn, e da segunda temporada de Pacificador (2025), também comandada por Gunn, além de Supergirl (2026), dirigido por Craig Gillespie, e Lanternas (2026), o estúdio começou a desenhar um universo que tenta equilibrar aventura, humor, drama e diferentes abordagens de gênero. No entanto, algumas das produções acabaram escorregando nos clichês tradicionais dos filmes de super-heróis.
É nesse cenário que Cara-de-Barro se destaca como uma ruptura dentro do gênero. A escolha de James Watkins para comandar o projeto não parece aleatória. O diretor britânico construiu boa parte de sua carreira no terror e no suspense, com filmes como Sem Saída (Eden Lake, 2008), thriller brutal sobre um casal perseguido por jovens violentos, e A Mulher de Preto (2012), história sobrenatural estrelada por Daniel Radcliffe. Mais recentemente, voltou ao gênero com Não Fale o Mal (2024), suspense psicológico que explora o desconforto e a tensão em situações aparentemente comuns. Essa experiência ajuda a entender a atmosfera sombria e a aposta no horror corporal presentes em seu novo trabalho.
Com roteiro de Mike Flanagan e Hossein Amini, o longa chegou aos cinemas brasileiros em 22 de outubro de 2026 e colocou Tom Rhys Harries no papel de Matt Hagen, o Cara-de-Barro, conhecido vilão do Batman que agora ganha um filme inteiro para chamar de seu, sem a presença do Homem-Morcego.
O resultado é, até aqui, a produção mais original e menos presa aos códigos tradicionais dos filmes de super-heróis dentro do novo DCU. Isso não significa que seja uma obra sem problemas. Mas, ao escolher o horror como linguagem e colocar a deterioração de um homem no centro da narrativa, Cara-de-Barro encontra uma identidade que outras produções desse universo ainda não conseguiram estabelecer.
O horror corporal e o afastamento da fórmula dos super-heróis

A principal escolha de Cara-de-Barro está em não tratar seu protagonista como apenas mais um personagem com poderes extraordinários. A transformação de Matt Hagen não funciona como uma simples origem de vilão, mas como o ponto de partida para uma narrativa de horror corporal (body horror), em que o próprio corpo se torna fonte de medo, sofrimento e perda de identidade.
Essa abordagem muda a maneira como o espectador acompanha a história. Em vez de depender de grandes confrontos, sequências de ação ou referências destinadas a alimentar o universo compartilhado, o filme concentra sua tensão na relação de Hagen com a própria aparência e com aquilo em que está se transformando. O horror não está apenas na transformação física, mas também na percepção de que o personagem perde o controle sobre o próprio corpo e, aos poucos, sobre a imagem que construiu de si mesmo.
Esse deslocamento é importante para o novo DCU. O filme mostra que um universo compartilhado não precisa fazer com que todas as produções tenham o mesmo ritmo, tom ou estrutura. Um personagem associado ao mundo do Batman pode protagonizar um terror psicológico sem que a narrativa precise se transformar em uma aventura convencional de super-herói. Neste caso, o antagonista do vilão nem sequer é mencionado na trama, mas todo o resto é super bem apresentado, como a tenebrosa cidade de Gotham e as mílicias e corrupções que a cercam.
Matt Hagen: quando a aparência deixa de ser uma identidade
A trajetória de Matt Hagen, interpretado pelo jovem ator galês Tom Rhys Harries, é o que dá sustentação dramática ao filme. Antes da transformação, o personagem é uma estrela da atuação cuja carreira e reconhecimento dependem diretamente da própria imagem. Como um galã em ascensão, seu rosto representa muito mais do que uma característica física. É parte do trabalho, da reputação e da maneira como se apresenta ao mundo. Hagen está cercado pelos holofotes e chega a ser indicado ao Oscar por sua última atuação.
No entanto, quando essa imagem é destruída, o personagem perde também a referência que tinha de si mesmo.
A ideia ganha outra camada quando Hagen descobre que, além de poder tentar retomar a própria vida, também consegue assumir diferentes aparências. Para um ator, interpretar significa construir outras identidades diante de uma câmera. Para o Cara-de-Barro, essa capacidade deixa de ser uma representação e passa a ser uma possibilidade literal. O personagem pode se tornar outra pessoa, mas essa liberdade também aprofunda sua crise. Se o rosto pode mudar a qualquer momento, o que permanece de Matt Hagen?
O filme acerta ao não transformar essa questão em uma justificativa simples para os atos do protagonista. Hagen não é apresentado apenas como uma vítima das circunstâncias, e sua transformação não apaga suas contradições anteriores. Esse é um dos grandes triunfos do longa.
Diferentemente de outras histórias de origem de vilões, como Venom (2018) e Kraven, o Caçador (2024) e até mesmo do excelente Coringa (2019), dirigido por Todd Phillips e protagonizado por Joaquin Phoenix, Cara-de-Barro não tenta transformar seu protagonista em um anti-herói ou justificar suas atitudes. Matt Hagen não é apenas um homem levado ao limite pelas circunstâncias. Ele é cruel, egoísta e capaz de fazer o mal sem hesitar.
O longa não pede que o público tenha pena dele, muito menos que confunda sua trajetória trágica com uma redenção. Em vez disso, acompanha sem amenizar o processo pelo qual ele se torna um dos vilões mais aterrorizantes do universo do Homem-Morcego.
A narrativa permite que o personagem atravesse a fronteira entre vítima e ameaça sem exigir que o público aceite todas as suas escolhas. Essa ambiguidade torna a tragédia mais interessante do que uma tradicional história de origem de vilão.
A estética do grotesco é um dos maiores acertos
James Watkins entende que o horror corporal exige mais do que mostrar imagens repulsivas. É preciso fazer com que o desconforto tenha relação com a história e com o estado emocional do personagem. Nesse sentido, as cenas no laboratório de Caitlyn Corr, interpretada por Naomi Ackie, e os momentos em que o corpo de Hagen sofre novas alterações estão entre os pontos mais fortes da produção. O filme não tem medo de utilizar o body horror como parte fundamental da narrativa.
A direção trabalha com uma combinação de próteses, efeitos visuais — estes, por sinal, muito bem aplicados e quase imperceptíveis dentro da história — e imagens que exploram a fragilidade da carne. O resultado cria momentos em que o espectador é colocado diante de algo ao mesmo tempo repulsivo e fascinante. A intenção é fazer com que o público experimente um pouco da mesma repulsa que o próprio Matt Hagen parece sentir diante de sua transformação.

Algumas sequências comprovam esse ponto, como aquela em que a médica Caitlyn Corr, interpretada por Naomi Ackie, decide realizar um estudo clínico em Matt enquanto ele dorme e percebe que, na verdade, ele é capaz de se transformar em qualquer pessoa. Lida apenas como uma descrição, a situação pode não parecer tão extraordinária. Na tela, porém, a execução é tão repulsiva que, em alguns momentos, chega a provocar no público a vontade de fechar os olhos.
Apesar de essa ser uma das maiores qualidades do longa, Cara-de-Barro parece ter receio de explorar seu diferencial até as últimas consequências. São poucas as cenas que James Watkins utiliza o body horror em todo o seu potencial. Em algumas transformações, os efeitos especiais parecem não apresentar uma transição suficientemente orgânica entre uma aparência e outra. É uma oportunidade perdida, já que sequências mais viscerais poderiam tornar ainda mais assustadora a evolução do personagem, que ainda está longe de assumir por completo sua forma monstruosa.
Onde o roteiro perde força
Se a construção de Matt Hagen é o principal mérito do longa, as relações ao redor dele nem sempre recebem o mesmo cuidado. A médica Caitlyn Corr, por exemplo, é uma personagem com potencial dramático, mas pouco aproveitado. Sua pesquisa científica, suas ambições profissionais e sua disposição para usar Hagen como cobaia levantam questões sobre ética, vaidade e responsabilidade.
No entanto, parte dessas possibilidades fica pelo caminho. A relação entre a cientista e o protagonista poderia ser mais complexa, especialmente porque os dois participam diretamente do processo que conduz à tragédia. Em vez disso, algumas motivações são apresentadas de maneira apressada, e a personagem nem sempre recebe espaço suficiente para desenvolver suas próprias contradições. Em determinados momentos, acaba reduzida à figura de uma simples mocinha indefesa, à la King Kong (2005), de Peter Jackson.
O núcleo envolvendo o detetive John Borelli, interpretado por Max Minghella, também nem sempre se encaixa no tom da narrativa. Em determinados momentos, a trama paralela parece pertencer a outro tipo de filme, interrompendo o desenvolvimento psicológico e o clima de horror, que funcionam melhor quando a história permanece concentrada em Hagen. A investigação é interessante, mas avança de maneira tão apressada para desvendar o mistério que o público mal tem tempo de se envolver com esse lado da história.

O ritmo acompanha essa irregularidade. O começo é eficiente ao estabelecer o conflito e conduzir rapidamente o protagonista à transformação. Depois, porém, a narrativa oscila entre o drama, o suspense e o terror sem explorar todas essas frentes com a mesma profundidade. O terceiro ato entrega momentos visualmente fortes, mas não resolve por completo as questões levantadas ao longo do caminho. Nessa etapa, o filme acaba se aproximando justamente da fórmula genérica de super-herói da qual parecia querer escapar no início desta crítica.
Isso não compromete a experiência a ponto de apagar seus acertos. Apenas impede que Cara-de-Barro alcance todo o potencial de uma proposta que, desde o início, demonstra ter mais a oferecer do que uma história convencional sobre a origem de um vilão.
O caminho que a DC pode seguir
O maior mérito de Cara-de-Barro não está em apresentar um novo personagem ou ampliar a mitologia do Batman. Está em demonstrar que o Universo DC pode funcionar melhor quando não tenta fazer todos os seus filmes parecerem parte de uma mesma receita. A conexão entre as produções pode existir sem limitar a identidade de cada história.
O longa de James Watkins não é uma reinvenção definitiva do cinema de super-heróis, tampouco uma obra de horror sem falhas. Na verdade, caminha em um meio-termo entre esses dois extremos. Não avança o suficiente para se tornar um body horror verdadeiramente visceral, mas também não assume por completo a estrutura aventuresca convencional de super-heróis de Sessão da Tarde.
Seu roteiro poderia desenvolver melhor os personagens secundários, aprofundar algumas relações e levar suas próprias ideias até consequências mais radicais. Ainda assim, são justamente suas escolhas de gênero e linguagem que o diferenciam.
Ao colocar um ator em processo de desintegração física e psicológica no centro da narrativa, Cara-de-Barro encontra algo que muitas adaptações de quadrinhos deixam escapar. Personagens extraordinários também podem protagonizar histórias profundamente humanas, desconfortáveis e trágicas.
É por isso que o filme se firma como o melhor e mais interessante capítulo do novo DCU até agora. Não necessariamente por ser o mais grandioso ou o mais completo, mas por entender que um universo cinematográfico não precisa repetir fórmulas para construir identidade. Às vezes, o caminho mais promissor é justamente permitir que cada personagem encontre sua própria linguagem.



